Bolsonaro: a confirmação de uma vitória improvável e a ascensão de novos personagens na política nacional.

13 de novembro de 2018 by in category Sem categoria with 0 and 0
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Bolsonaro: a confirmação de uma vitória improvável e a ascensão de novos personagens na política nacional.

O que podemos aprender sobre a primeira eleição com forte influência digital na democracia brasileira.

A corrida eleitoral brasileira em 2018 foi uma das mais tensas, frenéticas e imprevisíveis desde a redemocratização. Enquanto as forças políticas tradicionais e seus representantes lutavam para assegurar a manutenção de seu espaço no poder, novos atores surgiram e ganharam relevância, impulsionados pelo desejo da sociedade por renovação após anos de escândalos e desencantos com a classe política brasileira.

Desde o início de agosto, a Tree Intelligence, empresa internacional de consultoria e tecnologia especializada em inteligência e estratégia de redes, iniciou um projeto de monitoramento da rede de candidatos às eleições de 2018. O objetivo era desvendar a estrutura da rede ao longo da campanha eleitoral e compreender a evolução, semana a semana, da interação entre os potenciais ocupantes de cargos políticos, avaliando como temas específicos emergiam e eram disseminados nesta rede.

A constatação inicial, já nas primeiras semanas de monitoramento, foi que a rede de menções e replies entre os candidatos não refletia a realidade capturada nas intenções de voto da população na corrida presidencial. Enquanto durante o mês de agosto e início de setembro,  Jair Bolsonaro já despontava como líder isolado nas pesquisas com mais de 20% das intenções de voto, na rede de candidatos, ele aparecia como um ponto quase imperceptível, deslocado dos dois pólos representantes das principais forças políticas tradicionais e que pautaram as disputas presidenciais nos últimos 20 anos: o PT e partidos de esquerda de um lado, e o PSDB e seus aliados de centro-direita de outro (figura 1).

Figura 1: Rede de menções e replies dos candidatos às eleições de 2018.

O ponto de inflexão ocorreu somente após o atentado a Bolsonaro no dia 06 de setembro. A grande repercussão e mobilização tanto on quanto off line impulsionaram a visibilidade do candidato, colocando-o, de forma definitiva, no centro da rede entre candidatos.

Às vésperas do primeiro turno das eleições, essa rede apontava o novo cenário de disputa à Presidência. Surpreendentemente, os candidatos não mais se agrupavam nos dois polos tradicionais: PT x PSDB, mas em três importantes e influentes agrupamentos.

No lado da esquerda, Haddad era acompanhado por Ciro Gomes, Marina Silva e Guilherme Boulos. No centro, figurava Alckmin e, à direita, João Amoedo e Bolsonaro, antes invisíveis na rede, apareciam com expressiva influência, menor apenas que a de Haddad e Guilherme Boulos (Figura 2). A essa altura, Bolsonaro ampliava a liderança nas pesquisas eleitorais, seguido por Haddad, Ciro e Alckmin. Um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad já era dado como certo.

Figura 2: Rede de menções e replies dos candidatos às eleições de 2018.

Imediatamente após o 1º turno (07/10), a centralidade e a influência de Bolsonaro na rede entre candidatos se consolidaram, bem como se acentuou a polarização entre ele e Haddad. Alckmin, que ocupava uma posição central duas semanas antes do primeiro turno, tornou-se um nó mais periférico na rede de menções e replies dos candidatos. A rede entre candidatos apresentava, de forma inédita, uma nova polarização, que rompia com a velha disputa política entre PT e PSDB. Nela, Bolsonaro e Haddad concentravam em torno de si as interações entre candidatos no Twitter. De tão inédita, a nova configuração política rompeu, inclusive, com a mais antiga clivagem na eleição à Presidência da República pós-redemocratização: pela primeira vez, candidatos do PSDB declararam apoio tanto a Bolsonaro como Haddad.

O episódio #Elenão vs. #Elesim

A explosão de visibilidade de Bolsonaro após a “facada” no dia 06 de setembro e sua contínua ascensão nas pesquisas eleitorais foram impulsionadas por um novo episódio: o surgimento da hashtag #Elenão, movimento liderado por mulheres em repúdio à candidatura do presidenciável. A #Elenão viralizou rapidamente nas mídias digitais e se tornou um trending topic no Twitter a partir do dia 12 de setembro, quando foi lançada.

Porém, imediatamente em seguida, o movimento pró-Bolsonaro lançou sua própria campanha, a #Elesim, que contrapôs a #Elenão nas mídias sociais, sobretudo, no Twitter, manifestando o apoio de eleitores ao candidato do PSL.

Se observarmos este fenômeno comparando seus desdobramentos na rede entre candidatos e na sociedade como um todo, notaremos, mais uma vez, o grande distanciamento entre estes dois “mundos”.

Enquanto que, na twittosfera, a #Elenão foi 4 vezes mais mencionada em tweets do que a #Elesim (cerca de 1,1 milhão para #Elenão contra 284 mil para #Elesim), no “pequeno mundo” da rede entre candidatos, as proporções das manifestações entre estes dois movimentos foram praticamente iguais, ou seja, a #Elenão foi twitada 79 vezes, enquanto que a #Elesim apareceu 73 vezes. Porém, chama a atenção a quantidade de likes associados a cada uma das hashtags na rede entre candidatos. A #Elesim obteve 4,5 vezes mais likes do que a #Elenão (14.743 contra 3.236)

Mais uma vez, ficou evidente o descolamento entre o padrão de interações percebido na rede entre candidatos em relação a temas relevantes e o padrão emergente na web, que corresponde ao comportamento dos usuários no twitter.

Subvertendo a lógica da disputa eleitoral

Ao contrário da lógica construída ao longo das eleições diretas brasileiras, os recursos financeiros, o tempo de TV e a condição de já possuir mandato em curso não foram suficientemente determinantes para a vitória nas urnas nestas eleições.

No início do processo eleitoral, com a definição das alianças e a distribuição do tempo de TV e dos recursos de financiamento, poucos analistas políticos apostavam na sustentação de Bolsonaro na liderança das pesquisas de intenção de voto, muito menos na sua improvável vitória na disputa presidencial. Quanto ao Congresso, a expectativa de renovação manteve-se baixa, mesmo com a forte demanda da sociedade por mudanças. De fato, a aposta dos maiores partidos foi a de alocar a maior fatia dos recursos provenientes do fundo de financiamento de campanha para os políticos que buscavam manter-se em seus cargos.  

Porém, na contramão das expectativas, o nível de renovação do Congresso foi surpreendentemente alto: 47,3% na Câmara e 85% no Senado; números que indicam que a estrutura e a forma tradicionais de conduzir campanhas políticas parecem não mais se traduzir em resultados nas urnas. E, certamente, uma das razões deve estar associada à influência das mídias sociais – Twitter, Facebook, Instagram e Whatsapp – no processo eleitoral.

O Resultado: um Congresso renovado, com maior alcance digital

Apesar de todas as particularidades e eventos inesperados ao longo destas eleições, a configuração da rede entre candidatos após o atentado de 6 de setembro já retratava, semanas antes do primeiro turno, a força política de Bolsonaro e suas reais chances de vitória na eleição presidencial.

Desvendar as redes no mundo virtual e monitorar a presença e a evolução da interação dos candidatos nas mídias sociais deverão ser, a partir de agora, atividades mandatórias para dimensionar o real poder de influência dos políticos e candidatos e, consequentemente, suas reais chances de sucesso nas eleições.

De fato, ao longo destas eleições, foi possível notar que candidatos que construíram sua presença digital e trabalharam a interação nas mídias sociais desde as últimas eleições tiveram maior sucesso, mesmo com menor aporte de recursos financeiros de campanha e quase sem nenhum tempo de exposição nos meios de comunicação off line. Jair Bolsonaro é o caso mais notório. Sua estratégia de focar a comunicação nas mídias sociais vem evoluindo de forma consistente nos últimos 3 anos. O número de seguidores de sua página de Facebook praticamente dobrou entre janeiro e novembro de 2018, chegando a quase 10 milhões de pessoas, muito superior a seus concorrentes.

Abaixo, a evolução e o comparativo de alguns indicadores de Jair Bolsonaro nas Mídias Sociais em relação a outros presidenciáveis.

Mais uma evidência do impacto das mídias sociais no processo eleitoral, foi a quebra do protocolo histórico após a divulgação do resultado do 2º turno: ao invés de conceder uma entrevista junto aos principais canais de televisão aberta, Bolsonaro escolheu fazer seu primeiro pronunciamento como presidente eleito por meio de uma live no Facebook, ao passo que o candidato derrotado, Fernando Haddad, parabenizou Bolsonaro pela vitória por meio de um tweet, ao invés de cumprimentá-lo por meio de um telefonema.

No Congresso Nacional, as mudanças foram significativas. Tivemos a maior renovação na Câmara dos últimos 20 anos: 267 novos deputados. No Senado, das 54 cadeiras em disputa, apenas oito serão ocupadas por senadores reeleitos. As outras 46 serão ocupadas por novos senadores. Grandes partidos perderam representantes e partidos criados recentemente, como PSL e Novo, ganharam espaço.

Porém, é necessário olhar para além do número de novos personagens políticos que irão compor o cenário político brasileiro a partir de 2019. Outros indicadores devem ser analisados para compreender as mudanças no perfil dos representantes do poder legislativo nacional, a começar pela sua relação com mídias sociais.

Se, até essas eleições, ainda se suspeitava do papel das mídias sociais no resultado final do pleito, a partir de agora, elas não mais deverão ser subestimadas. Estamos diante de uma Presidência da República e de um Congresso Nacional em que seus representantes mais votados possuem uma influência e um alcance digital superiores aos mandato anterior.

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